Jane Voisin – UESC-Ba
A viagem emblemática do mitológico heroísmo português– a de Vasco da Gama à Índia, no limiar do século XVI – esteve por muitas vezes ameaçada. Seu cronista-mor, Luís de Camões, coloca em cena alguns desses momentos em Os Lusíadas: no monumental poema - “texto nacional por excelência”, como refere Eduardo Lourenço (1983: 90) -, o poeta atribui as dificuldades da empresa ultramarina ao deus Baco que, tomado pela inveja, faz tudo para impedir os lusos de realizar a empreitada da descoberta do cobiçado caminho marítimo para o Oriente.
Já no Canto I, quando a armada de Gama chega em alto mar, saída da praia do Restelo para a fabulosa aventura, os deuses se reúnem em “concílio glorioso / Sobre as futuras cousas do Oriente” (CAMÕES, 1964: 11 – Estância 20) [1], e Baco declara-se franco opositor da ousadia portuguesa de querer subjugar a Índia. Mas Vênus intervém em favor dos lusos - por quem nutre grande simpatia -, em acordo com Marte e o próprio Júpiter, que relembra os grandes feitos dos lusitanos contra mouros e castelhanos, ressaltando-lhes os dotes conquistadores. E assim, sob as bençãos da maioria dos deuses, seguem os valerosos navegantes pelos mares nunca dantes navegados, iniciando uma saga escrita sob o sig-no do heroísmo messiânico que virá marcar indelevelmente o espírito português.
O Baco camoniano não desiste: ainda no Canto I, monta estratagemas para desviar a esquadra do bom caminho e, no Canto VI, convoca os deuses dos mares para castigar os lusos enviando-lhes uma tempestade fatal. Entretanto, sai perdendo mais uma vez, sobretudo pela intervenção de Vênus, que invariavelmente protege os portugueses, garantindo o êxito da viagem que Camões relata com o objetivo declarado de cantar “o peito ilustre lusitano”, de registrar com tinta indelével esse momento glorioso da raça identificada pela deusa como descendente de seu filho Enéas, protagonista da Guerra de Tróia .
Pois é essa narrativa fundadora da literatura e mitologia lusitanas modernas que o escritor contemporâneo António Lobo Antunes[2] vai dinamitar em As Naus (1988), obra por ele classificada como antiepopéia, obviamente ironizando a versão camoniana que heroiciza e mitifica os eventos e personagens históricos fundamentais na construção da identidade cultural portuguesa.
Nesse romance, Antunes vai efetivamente subverter a interpretação corrente dos sucessos da expansão ultramarina – inscrita tanto no texto camoniano quanto na historiografia oficial -, mas não é só isso. A dessacralização das situações e heróis lusos do Ciclo dos Descobrimentos será urdida através de um dos seus temas favoritos: o processo em torno da Revolução dos Cravos (1974), enfocando, nesse caso, a descolonização – quando o governo pós-salazarista determinou o retorno a Portugal de um milhão de portugueses e descendentes que se encontravam instalados nas colônias da África.
Esses dois momentos altos da saga portuguesa - duas supostas soluções históricas miraculosas para os grandes problemas lusos -, separados por quase quinhentos anos, são, assim, superpostos palimpsesticamente, resultando numa paródia satírica historicizante que se move no campo do sério-cômico, tal como o definiu Bakhtin (MACHADO, 1995).
A presente hipótese de leitura considera que a montagem parodística desse texto, realizada com deslocamentos ferozmente irônicos desses dois temas caríssimos à trajetória portuguesa – o das Descobertas e o da Revolução de Abril - parte de um implícito que lhe seria sustentador: em As Naus, Antunes entregaria sua leitura/escrita do destino luso a Baco, deixando-o desta vez ganhar a batalha contra os portugueses, como revanche das derrotas sofridas pelo deus na versão épica do poeta-soldado, uma visão exaltante do percurso lusitano que fixou como mito a memória histórica da raça.
Tal procedimento de re-escrita ficcional e subversiva da história – cujos processos serão comentados em seguida - tem sido apontado como marca da literatura pós-moderna, produzindo um tipo de texto denominado por Linda Hutcheon (1991) de metaficção historiográfica. No caso de As Naus, vai-se verificar a carnavalização radical dos dois processos históricos portugueses mencionados, gerando uma espécie de comédia que promove a total destruição dos grandes mitos lusíadas, sepultando o sonho acalentado por sucessivas gerações - de Bandarra a Pessoa, passando por Vieira - da volta de D. Sebastião, ou seja, do cumprimento do (suposto) glorioso destino português.
O leitor que conhece a recente história de Portugal poderá perceber, não sem alguma dificuldade inicial, que Lobo Antunes traz, em As Naus, o lamentável percurso dos retornados, assim chamados os ex-colonos obrigados a regressar a Portugal por imposição do novo governo revolucionário. As situações ficcionais vão permitir o reconhecimento desse episódio histórico tomado como referente, mas de maneira invulgar.
De fato, o assunto, de caráter eminentemente sério, vai ser apresentado por uma tortuosa via que estabelece um abismo entre o tema proposto e um esperado estilo realista – em princípio adequado à sua expressão. Sob o influxo demoníaco da paródia (SANT’ANNA, 1991:29), esse dramático retorno irá se tornar risível, já que Antunes dá, a esses marginalizados da história, nomes e características das mais altas figuras do heróico período nacional quinhentista. Com humor irônico e demolidor, o romancista coloca os emblemas da pátria nas situações baixas vividas pelos miseráveis retornados, obrigados a adotar um país que já não conheciam, onde não tinham mais raízes, despossuídos de bens e trabalho, abandonados como párias sem pertença, sem identidade.
O título da tradução francesa de As Naus – Le retour des caravelles – corresponde bem ao que vai mostrar o romance: o percurso da aventura iniciada no século XVI com a ida das naus descobridoras implusionadas pelo desejo de conquistas, heroísmo e glória, e encerrada com a desventurosa volta, cinco séculos depois, dos remanescentes (simbólicos) dos naufrágios, epidemias e toda sorte de fracasso, compondo a cena final da decadência do sonho português, que Antunes urde levado pela sanha vingativa de Baco, ao que tudo indica primeira personagem de Os Lusíadas a sofrer um tratamento de inversão paródica, embora sequer apareça na antiepopéia.
Estruturado em dezoito seqüências narrativas, o romance antuniano vai sinalizar ao leitor, logo no início, a perspectiva pela qual a obra deve ser lida. Na situação de um retornado a se registrar na entrada em Lisboa, após viagem no avião vindo de Angola com os demais retornados que “formavam uma serpente de lamentos e miséria aeroporto adiante” (ANTUNES, 1988:13), surge ninguém menos que Pedro Álvares Cabral, identificado como o achador do Brasil. Nesse momento, o pacto ficcional que o leitor de segundo grau (ECO, 1994) deve assumir já aponta, claramente, para o código irônico-paródico adotado na escrita desse romance.
O jogo que preside a montagem da paródia e sua intenção dessacralizadora serão confirmados ao longo do texto: as personagens, reconhecidas pelas circunstâncias indicadas como os retornados das ex-colônias, não só portam o nome dos heróis dos descobrimentos como deles têm dados biográficos, de modo que as figuras máximas do panteão nacional, imortalizadas por Camões, vão ser recontextualizadas, configurando hilariantes desvios paródicos marcados por anacronismos sistemáticos e delirante mixagem de signos representativos de um amplo período histórico, desde a eufórica paisagem descobridora do século XVI até o depressivo quadro do retorno no processo revolucionário.
ESPELHO INVERTIDO OU O MUNDO ÀS AVESSAS
A aparente incompatibilidade entre os nomes das personagens e as situações que vivem introduz o elemento humorístico, que se afirma na medida em que as figuras são pintadas com traços dos heróis homônimos do passado, ou o seu avesso – o que é igualmente identificador, pelo procedimento paródico do espelho invertido (SANT’ANNA, 1991: 32).
Assim, enquanto o poeta épico, inspirado pela musa Calíope, canta os grandes feitos daqueles nautas pioneiros que desbravaram os mares expandindo a Fé e o Império, Antunes, ao que parece sempre em conluio com Baco, arranca-os da galeria dos heróis nacionais e os materializa no contexto contemporâneo, reduzindo os semi-deuses – condição a que Camões os elevou em sua epopéia – a reles mortais decadentes e corrompidos. Essa transmutação será feita pelo rebaixamento paródico do sagrado, do sério, do elevado, do sublime, que são destronados para a instauração de uma nova ordem, produzindo uma representação grotesca conforme descrito na teoria bakhtiniana da carnavalização (MACHADO, 1995: 184).
Na mais pura tradição rabelaisiana, Antunes vai compor quadros patéticos a partir de elementos recortados do passado e do presente, subvertendo ironicamente a história de Portugal ao colocar episódios recentes em diálogo com registros de um tempo distante onde tudo teria começado, e que teria gerado o atual panorama nacional, sintetizado num “reyno onde os marinheiros se coçam, desempregados, nas mesas de bilhar, nos cinemas pornográficos [...]” (ANTUNES, 1988: 68).
Com essa operação transfiguradora, os perfis e histórias das personagens-síntese do romance acabam sempre risíveis, não raras vezes pelo humor negro, pelo insólito das colagens e invenções aparentemente aleatórias que instalam um clima de absurdo e de nonsense. Mas é no fio desse tear deformante que aspectos geralmente excluídos do discurso oficial vão sendo desvelados, fazendo emergir uma crítica de espantosa violência à trajetória portuguesa. Pela fantasia desvairada, Antunes ilumina partes obscuras da história, cumprindo o papel do romancista, segundo entende seu premiado compatriota, José Saramago.
Dessa maneira, os ídolos nacionais vão sendo desmontados um a um, sem piedade. Pedro Álvares Cabral , já referido, vinha fugido de Angola, da guerra entre o MPLA e a UNITA (partidos políticos responsáveis pela sangrenta guerra civil que dura até hoje). Sua mulher-retornada se prostitui em Lisboa, onde o casal vai viver na Residencial Apóstolo das Índias, que acolhe os retornados em condições degradantes. No romance, consta que Cabral teria descoberto o Brasil, descrito como um “monstro esquisito de carnavais, papagaios e cangaço” (ANTUNES, 1988: 68).
A composição das demais personagens vai-se fazendo, invariavelmente, dessa forma: Diogo Cão, agora retornado bêbado em Lisboa, será identificado com seu homônimo quinhentista - o grande explorador da costa ocidental africana, que permitiu a largada para a Índia – através de referências como “há trezentos, quatrocentos ou quinhentos anos comandara as naus do Infante pela costa da África”. (ANTUNES, 1988: 65). A ironia sobre a figura do herói histórico faz do anti-herói antuniano “despojo de Almirante” e “nauta fingido”.
O mundo às avessas, topos característico do gênero satírico medieval (CURTIUS, 1991: 170), será consolidado como a nova ordem instaurada pela narrativa, que prossegue subvertendo as imagens das figuras célebres da história portuguesa, tirando delas toda a aura que a historiografia lhes atribuiu pelas famosas viagens, elas próprias rebaixadas a “pobres viagens inventadas de cômico velho” (ANTUNES, 1988: 151-152).
O sórdido albergue – evidentemente a sede simbólica do que restou do Império oriental português – vai acolher ainda Francisco Xavier, na historia oficial, jesuíta espanhol que funda a Companhia de Jesus com Ignacio de Loyola e vai ao Oriente, onde morre. Em Antunes, sua caracterização se faz pelo exagero de características opostas às da personagem parodiada: o santo é um retornado que se tornou cafetão em Lisboa, auferindo lucros ao agenciar mulheres retornadas nas casas noturnas da capital. É referido como um “indiano gordo” de sandálias que já tinha sido rico na Índia, e seu discurso é pontuado de invocações a Deus em meio às imprecações e pastiches de orações sacras desvirtuadas com deslavado cinismo, configurando o processo de perversão paródica pelo excesso grotesco e pantugrélico do texto parodiante (MARTINS, 1999).
É essa mesma operação de contrafação paródica que vão sofrer outras figuras históricas – Fernão Mendes Pinto (o genial autor de Peregrinação, uma peça rara da literatura de viagens do período expansionista), Gil Eanes, Dom João de Castro, Afonso de Albuquerque, Dom Francisco de Almeida, Manoel de Souza de Sepúlveda, Fernão Lopes, Gil Vicente e até Nuno Álvares Pereira , o principal artífice da vitória lusa na batalha de Aljubarrota, contra os castelhanos, que na antiepopéia vira dono da Boite Aljubarrota, promíscuo ponto de encontro dos retornados.
DE SEMI-DEUS A ANTI-HERÓI
O caso emblemático da ação subversiva de Antunes é o de Vasco da Gama, o mais celebrado dos navegantes portugueses que assegurou ao reino português o monopólio do cobiçado comércio de especiarias com sua descoberta. No romance de Antunes, o herói aparece como um retornado aposentado que limpava as “diarréias e vômitos do [meu] irmão moribundo Paulo da Gama” (ANTUNES, 1988: 181) e lembrava com desdém que lhe haviam entregue uma frota e “um maço de mapas de continentes inventados” (ANTUNES, 1988: 113).
Essa atitude desdenhosa com relação à missão confiada a Gama por el-rei D. Manuel se contrapõe claramente ao discurso sério e solene do herói camoniano, que diz em Os Lusíadas como recebeu a tarefa régia: “Me põe o ínclito rei nas mãos a chave / Deste cometimento grande e grave” (IV; 77). E o próprio monarca assinala, no poema, a distinção de Gama para a empresa ultramarina: “Eu vos tenho entre todos escolhido / Para uma empresa qual a vós se deve, / Trabalho ilustre, duro e esclarecido” (IV; 79).
A imagem do novo Gama engendrado por Antunes vai-se tecendo, desse modo, pelo processo da apropriação – a paródia levada ao paroxismo (SANT’ANNA, 1991: 46). Transfigurado, definitivamente dessacralizado, aviltado, compõe agora a figura de anti-herói, que retorna a Lisboa após cinqüenta anos de África, é viciado em jogo de cartas e usa a linguagem chula da beira do cais: “Porra, apesar de tudo nomearam-me conde”, exclama a certa altura (ANTUNES, 1988: 113). Esse desprezo irônico do Gama antuniano pela glória irá se contrapor ao tom solene do poema camoniano, no qual a voz do poeta, falando dos heróis do Oriente, diz: “Também tu, ó Gama, em pago pelo desterro em que estás, e serás ainda tornado, / Co’os títulos de Conde e d’honras nobres, / Virás mandar a terra que descobres” (X; 53).
A personagem histórica é reconhecida em passagens que fundem os tempos dos descobrimentos com os revolucionários. Um exemplo flagrante desse anacronismo estruturador é a descrição do momento da saída da frota do Gama retornado, referido como se fora num passado recente. O efeito cômico se intensifica a partir do conhecimento prévio, pelo leitor, dos versos épicos de Camões que tratam do tema.
Ali, a cena da despedida dos bravos portugueses que partem para a aventura é evocada com toda a solenidade e tom elevado, garantindo o efeito dramático-heróico da situação. Na praia, mães, mulheres, filhos, namoradas da tripulação choram a separação, lamentando a decisão do rei de submeter seus homens a tal perigo. O discurso do Velho do Restelo (bastante estudado pela sua ambigüidade no contexto do poema) questiona a glória e a fama, a cobiça e a vaidade que animariam a ofensiva expansionista lusitana.
Se a narrativa camoniana desse famoso episódio– transferida para a personagem Paulo da Gama, no seu relato ao rei de Melinde - toma duas dezenas de estâncias (IV; 85 -104) e representa um momento de tensão dramática que cria um contraponto interno no poema, a de Lobo Antunes não ocupa mais do que uma página, carregada de ironia dessacralizadora já pelo pouco caso com que o assunto é lembrado pelo Gama tornado anti-herói retornado.
Nessa contra-versão, signos urbanos/contemporâneos se misturam a elementos de época, numa colagem de efeito nitidamente kitsch que provoca o riso. A rápida cena enfoca o público presente à praia para as despedidas, num palanque com toldo de franjas onde estão a corte com a rainha, bispos paramentados de dourado, o núncio apostólico – “de óculos escuros de mafioso taciturno”, embaixatrizes decotadas de países longínquos, corvos que recitam o Hino da Carta das tabernas, e o povo, “ai, o povo a acenar bandeirinhas verdes e encarnadas”. O “venerando” Velho do Restelo aqui se transforma numa velha que atira a Gama uma “bênção angulosa de profeta ao bolinarem já para as correntes da barra” (ANTUNES, 1988: 113).
O novo Gama, que encontra em Lisboa oficiais da Escola de Sagres “fumando heroína e explorando bares em Albufeira” (ANTUNES, 1988: 118), concebe um plano “medonho” para se apoderar de Portugal, o que leva o rei D. Manuel (também devidamente atualizado ironicamente na paródia antuniana) a nomeá-lo comandante de uma expedição enviada em submarino ao Pólo Norte para estudar os pingüins. Aí se tem instaurado o nonsense, com a quebra da ordem lógica até o absurdo, configurando um índice máximo de deslocamento em relação à narrativa parodiada.
A referência ao poema de Camões mostra-se onipresente, inclusive com seus elementos mitológicos: em um momento, Gama é instado por um sobrinho a empreender uma segunda viagem à Índia (o que teria ocorrido na realidade histórica), mas não para cumprir sua sina heróica, pois o que o parente quer é herdar a riqueza do tio célebre e rico com o dinheiro do jogo, depois que ele “morresse na Ilha dos Amores, gasto por um cardume de ninfas insaciáveis” (ANTUNES, 1988: 116).
A superposição é evidente: em Os Lusíadas, a Ilha dos Amores (IX; 18-95 e X; 1-7) é o prêmio oferecido por Vênus aos heróicos navegantes ao cabo da vitoriosa empreitada do descobrimento do caminho marítimo para a Índia. No retorno da frota, a deusa prepara um festim divino para a tripulação, a quem oferece ninfas apaixonadas numa ilha paradisíaca salpicada de flores e frutos deliciosos. Gama merecerá ninguém menos que Tethys, a mais cobiçada das nereidas.
Em Lobo Antunes, tudo será diferente: sem homenagens, Gama retornará ao seu país agora povoado de navegantes retornados decaídos, senis, desonrados, que circulam pelos bares de Lisboa desafogando suas mágoas nas bebedeiras e jogatinas enfestadas de novas nereidas, ninfas e tágides – as retornadas prostituídas grotescamente enfeitadas de lamê. As figuras femininas mitológicas com que Camões pontua seu poema são aqui dessacralizadas pelo novo contexto em que estão inseridas: no lugar das fontes límpidas do paraíso, movem-se agora nas sujas casas noturnas à beira do poluído cais lisboeta.
Vê-se que as personagens heróico-míticas de Camões são deformadas ao extremo no texto de Antunes, tornando-se figuras com histórias, sentimentos e modos de expressão baixos, num procedimento típico desse gênero de paródia carnavalizante tal como vem sendo caracterizado desde os estudos literários de Bakhtin até as reflexões atuais em torno do pós-modernismo, que apontam a montagem paródica (com humor e ironia) como técnica ficcional basilar da narrativa contemporânea.
A reconstrução carnavalizada ou a perversão paródica da figura de Vasco da Gama – aqui tomado como exemplo do mecanismo romanesco geral de As Naus – continua de maneira vertiginosa: o jogo de anacronismos, inversões e invenção desmesurada vai resultar em que o herói descobridor-retornado se instala em sua cidade natal – Vila Real -, onde el-rei D. Manuel vem, em pessoa, buscá-lo aos domingos para passear de carro e conversar sobre as coisas do Oriente.
A paródia chega ao seu paroxismo, nesse caso, no episódio cômico e metaficcional em que o bravo navegador e o “Venturoso” monarca - sob cujo reinado Portugal se apossou de meio mundo - são presos numa blitz de trânsito. Embora el-rei tivesse apresentado um pergaminho escrito em letras góticas que ele era o “patrão” do país, a polícia não crê na inverossímil figura com “coroa de lata e manto de arminho” (ANTUNES, 1988: 120), e as duas personagens sublimes em Camões acabam, em Antunes, julgadas e enviadas a um sanatório de dementes. Aí, a narrativa ela mesma confessa a farsa que a estrutura e sustenta, farsa dupla na medida em que vai do plano diegético (da fábula) ao do discurso, num jogo de espelhos cuja imagem-síntese é caleidoscópica, grotesca, absurda.
MITOS DEMOLIDOS
A apropriação dessacralizadora dos mitos nacionais empreendida por Lobo Antunes vai além das personagens camonianas, atingindo o próprio Camões, que aqui também perde seu cetro de “Homero português” para se tornar um pobre retornado de atrapalhadas peregrinações pela África e Ásia. A figura que encarna Portugal no texto da história é referida na versão de Antunes como “o homem chamado Luís”, a quem falta a vista esquerda e que retorna a Lisboa com o corpo do pai morto na guerra colonial, após uma dura viagem no porão de um navio vindo da África, com longas esperas pelos portos afora.
Embaraçado mas obcecado com esse pacote mórbido (transfiguração dos famosos manuscritos salvos do naufrágio?), o Luís retornado será identificado pelo leitor como o Camões histórico por aparecer escrevendo uma longa epopéia em oitavas de versos heróicos, etc. Nas pistas dadas, são reconhecidas as características da gênese e forma de Os Lusíadas.
O autor da obra-prima da literatura portuguesa, na pele de retornado, passará por maiores privações do que teria passado o “verdadeiro” Camões: o Luís antuniano conhece a fome em Lisboa, saindo como mendigo pela cidade, quando vai tomando notas e “moendo episódios históricos”. Parece que o processo paródico do deslocamento temporal e de conteúdo fatual se soma à redução substancial do valor/dimensão dos elementos parodiados: as aventuras extraordinárias por terras longínquas vividas pelo Camões “real” se restringem aqui a ordinários eventos urbanos na miséria noturna e ébria dos retornados, vítimas do contexto pós-revolucionário, do “Estado democrático, nascido, com a ajuda da parteira mão castrense, do ventre putrefacto do totalitarismo fascista [...]” (ANTUNES, 1988: 61).
Na nova situação, portanto, o texto que “o homem chamado Luís” está escrevendo deverá corresponder, exatamente, a essa antiepopéia dos retornados, o negativo fotográfico (corrompido, traficado) de Os Lusíadas, ou seja, o avesso da exaltação heróica que irradiou uma versão da história agora violentamente demolida pela apropriação carnavalescamente dessacralizadora operada por Antunes.
No final de As Naus, os anti-heróis retornados vão todos para o asilo de loucos, local maldosamente simbólico onde são reunidos os destroços dos heróis lusos forjados por Lobo Antunes. É ali que o estranho grupo organiza uma expedição para assistir ao desembarque do rei D. Sebastião quando corre a informação de que o país fora invadido pelos castelhanos, após fracasso da expedição no Marrocos.
Na paródia, o perfil do rei D. Sebastião vai surgindo pelo discurso das personagens, sempre em modo de franco insulto ao “menino loiro” que virou a figuração da esperança messiânica, fado do povo português. A história da famosa batalha de Alcácer Quibir, na qual teria morrido, é ironicamente subvertida: o rei Filipe da Espanha decide invadir Portugal “porque D. Sebastião, aquele pateta inútil de sandálias e brinco na orelha, sempre a lamber uma mortalha de haxixe, tinha sido esfaqueado no bairro de droga de Marrocos por roubar a um maricas inglês, chamado Oscar Wilde.” (ANTUNES, 1988: 179). Em outras passagens, ainda, D. Sebastião é referido como maricas, idiota, entre outras imprecações, configurando o discurso ostensivamente demolidor que marca a violenta derisão paródica sobre as já citadas matrizes textuais tomadas por Antunes.
A BACO, AS BATATAS
Fica claro, portanto, que a disposição de inverter, subverter, desarticular, mutilar, transfigurar o referente formaliza a apropriação dessacralizadora da epopéia camoniana e demais textos que glorificaram as proezas lusíadas, mitificando a história de Portugal, construída, como se diz, sobre imagens fantasiosas emergentes da crença sebástica que ao longo dos séculos sustentou a alma portuguesa, conformada à figuração épica dada por Camões, apontada muitas vezes como reveladora de um nacionalismo cego, fonte de irrealismo histórico e de esquizofrenia ideológica e cultural (LOURENÇO, 1983: 90).
Pelo viés do humor, da ótica do riso, das colagens intertextuais e uso de técnicas e categorias diversos - caricatura, pastiche, grotesco, ironia, sátira, absurdo, nonsense –, Antunes se entrega a uma espécie de delírio deformador, desrecalcando o discurso sério e elevado da história lusa, colocando num caldeirão demoníaco a antologia trágico-marítima em toda a sua amplitude e fragilidade, cujo efeito se resumiria na postura de um povo eternamente abandonado à espera estéril de um espectro que não virá jamais, como o Godot beckettiano.
O quadro final – cômico e trágico ao extremo, mostrando um império implacavelmente naufragado – parece funcionar efetivamente como o epitáfio do sebastianismo, como quer João Medina (MACHADO, 1996: 559). Mas, conhecendo-se as posições de Lobo Antunes, infere-se que o romance, exorcizando o passado, seria um alerta para a urgência de reconstrução da identidade portuguesa no novo espaço da modernidade européia e global.
E aqui caberia lembrar a formulação nietzscheana de que só pode haver ressurreição se há morte, e a de Hegel e Marx, que assinalam que a última fase de uma forma histórica mundial é sua comédia (SANT’ANNA, 1991: 50/49) - o que, certamente, serve também em escala nacional, como seria no caso português.
De todo modo, a ação devastadora da narrativa antuniana sobre os emblemas mesmo do sebastianismo conseguiu promover a virada da história lusa tal como o teria desejado Baco, desta vez o grande vitorioso, em associação com Lobo Antunes. A eles, pois, as batatas – como diria o mestre Machado de Assis.
ANTUNES, António Lobo. As Naus. Lisboa: Dom Quixote, 1988.
CAMÕES, Luís de . Os Lusíadas. Rio de Janeiro / São Paulo / Porto Alegre: W. M. Jackson Inc. Editores: 1964.
CURTIUS, E. R. La Littératura Européenne et le Moyen Âge Latin. France: Presses Universitaires de France, 1991.
ECO, Umberto. Seis Passeios pelos Bosques da Ficção. Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1a reimpres. 1994.
HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro, Imago, 1991.
LOURENÇO. Eduardo. Poesia e Metafísica. Camões, Antero, Pessoa. Lisboa: Sá as Costa, 1983.
MACHADO, Álvaro Manuel (org. e dir.). Dicionário de Literatura Portuguesa. Lisboa, Editorial Presença, 1996.
MACHADO, Irene. O Romance e a Voz. A prosaica dialógica de Mikhail Bakhtin. Rio de Janeiro, Imago/FAPESP, 1995.
MARTINS, J. Cândido. “Recepção parodística de Cesário Verde, Sá-Carneiro e F. Pessoa no intertexto surrealista” in: Projeto Vercial 1999, http://www.ipn.pt/literatura.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, Paráfrase & Cia. 4a ed., São Paulo, Ática, 1991.